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  • Foto do escritorMargarida Vieira

Retratos de Claude Cahun

Hoje é o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+ e na minha última publicação falei um pouco sobre o movimento do surrealismo. Hoje, para assinalar e celebrar este dia, decidi falar-vos sobre alguém que admiro: Claude Cahun, artista surrealista (da geração de Magritte) que nasceu em 1894, em França. Entre muitos outros papéis, foi fotógrafe, poeta e ensaísta, ainda fez teatro experimental, mas foi pelo seu ativismo e autorretratos que mais ficou conhecide. Cahun era uma pessoa trans e no início da idade adulta adotou o nome de Claude por ser um nome neutro em género e não querer ser identificade apenas como mulher ou como homem. Escolheu Cahun por ser um dos apelidos da sua avó, pessoa que mais esteve presente e envolvida na sua educação. Manteve uma relação amorosa com Marcel Moore desde a adolescência até à data da sua morte, tendo sido também ajudante e parceire no seu trabalho fotográfico.


No início dos anos 20 mudou-se para Paris, onde se deparou com o movimento vanguardista que impulsionava as normais sociais para novas direções e onde a sua arte tomou novas dimensões. A moda e a fotografia foram, para si, meios de exploração identitária e da sua expressão de género, mas acabou também por ser um meio de expressão social e política. Cahun dizia que uma só realidade não era suficiente e tornou a ambiguidade um tema, retratando em muito do seu trabalho fotográfico vários géneros e várias personagens. Tanto se fotografava enquanto A Virgem, como um monstro, uma boneca a levantar pesos, uma fada ou um marinheiro. Num dos seus livros, Aveux non Avenus publicado em 1930, escreveu: “Masculino? Feminino? Depende da situação. Neutro é o único género que combina sempre comigo”. Este livro nunca foi bem recebido e o seu trabalho fotográfico nunca chegou a ser exposto enquanto viveu (para além das fotomontagens que incluiu no livro e chamavam a atenção de outros artistas surrealistas).

Não é, obviamente, surpreendente o facto deste livro nunca ter sido bem recebido. Todo este percurso de Cahun acontece numa altura em que, em grande parte do mundo, um homem ou uma mulher aparecerem em público com “roupas não pertencentes ao seu sexo” era ilegal. Além disso, vivia-se numa época em que a medicina passava a ter um papel central na definição da vida quotidiana, substituindo a religião enquanto autoridade social mais elevada. Este poder, contudo, foi utilizado frequentemente com propósitos conservadores, como por exemplo na tentativa de provar que as mulheres eram inferiores aos homens. As instituições médicas tinham o poder social de determinar o que era saudável e o que era doente, o que era normal e o que era patológico, e a sua vontade de intervir e ajudar andava de mão dada com o poder de definir e de julgar. Foi então em 1877, menos de 20 anos antes do nascimento de Cahun, que Richard Von Krafft-Ebing, psiquiatra e professor de psiquiatria em Viena, um dos primeiros investigadores a debruçar-se sobre temas da sexualidade, publicou Psychopathia Sexualis - baseado num sistema de categorização de perturbações psicossexuais que estava a desenvolver - e que referia que qualquer desvio em relação à orientação heterossexual e, ao que hoje nos referimos como cisgénero, representava uma forma de doença física ou mental. Para Krafft-Ebbing, tais desvios da cisheteronormatividade podiam ser pouco graves e inconsequentes ou muito graves, sendo que as pessoas trans estavam no estado mais patológico ou, como dizia “no estado mais adiantado da perversão”, classificando como psicótica a vontade de afirmação género.


Para além deste contexto social, politicamente Cahun assistiu ao crescimento do fascismo e da ideologia nazi na Europa. Sendo Cahun descendente de Judeus e com a tensão a aumentar em Paris, fugiu em 1937 com Moore para a ilha de Jersey, que foi, pouco depois, ocupada pelas tropas alemãs. Durante este período, Cahun e Moore utilizavam apenas os seus deadnames e escondiam a sua relação amorosa, mas resistiram aos SS deixando mensagens de protesto em pequenos pedaços de papel e, por vezes, em papel higiénico, nos bolsos das fardas a que tinham acesso nas lavandarias ou nos maços de cigarros deixados nos cafés. Anos mais tarde foram descobertes e sentenciades à morte e muito do trabalho de Cahun foi queimado pela Gestapo. Com o final da guerra conseguiram a sua liberdade, tendo posteriormente sido condecorades com medalhas de agradecimento.


Cahun tornou-se um ícone entre historiadores de arte contemporânea, na área de Estudos de Género e na comunidade LGBTQIA+ pela sua abordagem arrojada e revolucionária às (o)pressões de uma sociedade estigmatizante e que patologizava qualquer exploração que se enquadrasse fora das normas cisheteronormativas. Morreu em dezembro de 1954. Não viveu para assistir à Revolta de Stonewall, que faz hoje 54 anos, mas fez, definitivamente, história.




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