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  • Foto do escritorMargarida Vieira

Devem os psicoterapeutas fazer psicoterapia?

Atualizado: 16 de jun. de 2023

Foi na década de 1920 que surgiu o surrealismo, um movimento artístico, literário e intelectual, um grito contra uma sociedade opressiva e restrições impostas pelo consciente e pelos códigos morais. Fortemente influenciado pelos contributos da teoria psicanalítica de Freud, os sonhos e o irracional tornaram-se o principal mote da produção artística. Os artistas surrealistas começaram a olhar a arte como forma de revelar verdades e informações profundas sobre a mente, que estavam além da compreensão racional, passando a explorar o inconsciente e a subjetividade humana nas suas obras. Este movimento foi marcado por artistas como Salvador Dalí, Frida Kahlo, Joan Miró, Max Ernst, e obras que combinavam elementos da realidade com imagens oníricas, provocando uma sensação de estranheza e desafio à lógica e à perceção da realidade – característica também muito representativa do trabalho de René Magritte.


Magritte, nascido em 1898, na Bélgica, mudou-se para Paris no final dos anos 20, na expectativa de reconhecimento do seu trabalho. Conheceu André Breton - escritor, poeta e líder do Movimento Surrealista na literatura e na arte - e passou a integrar o seu círculo surrealista. Contudo, o seu estilo de vida não boémio era pouco compreendido pelos colegas e as suas obras passaram a ser objeto de discussão entre si, não pelo seu valor artístico, mas pelas tentativas de analisar a sua personalidade. O artista não recebeu bem tais discussões e pintou The Therapist. Esta obra foi criada como crítica e ridicularização do “vício” surrealista da psicanálise, referindo que quem precisa de psicoterapia são os próprios psicoterapeutas. Bom, na verdade ele não podia estar mais certo e à frente do seu tempo, tendo acabado por fazer uma representação bastante interessante do que pode ser um processo psicoterapêutico.


O terapeuta é exposto diariamente a uma elevadíssima carga emocional vinda de várias frentes – para além da das pessoas que acompanha, da sua própria e dos vários sistemas de que faz parte (do seu meio familiar, dos seus amigos, do contexto social, político, económico). Muitas vezes o seu autocuidado é negligenciado e os níveis de exaustão sobem consideravelmente. Por isso, práticas como exercício físico, 20 minutos de sol, tempo para só existir, supervisão e psicoterapia caem todas na categoria do autocuidado. A psicoterapia dos terapeutas é um espaço essencial de (des)conforto: ao mesmo tempo que é um espaço de confronto e questionamento, é um espaço seguro que potencia a procura de caminhos para o conforto e o crescimento. A terapia é essencial para não cair em estigmas e paradigmas de que há um terapeuta todo-poderoso que usa uma capa, tem respostas mágicas e recursos ilimitados. Importa desmistificar, humanizar e priorizar o autocuidado e o próprio processo de fazer terapia – por vezes, para ajudar, é também preciso saber ser ajudado. Ou como mostra “The Therapist”, abrir o véu e deixar aceder a uma parte interna que pode ter em si partes e lugares enjaulados que tentam comunicar com o exterior. Magritte brincou com a nossa perceção e parece deixar-nos a questão: o pássaro está preso ou escolhe ficar?



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