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  • Foto do escritorMargarida Vieira

Como pode a fotografia ser uma ferramenta de saúde mental?

Hoje é Dia Mundial da Fotografia e decidi partilhar mais sobre um projeto que foi, para mim, muito especial. Chama-se Pelos Teus Olhos e foi um projeto de fotografia comunitária apoiado pelo BIP/ZIP Lisboa 2020, um programa que visa apoiar projetos locais que contribuem para o incentivo à cidadania ativa e para a procura coletiva de soluções através da participação da população na melhoria das suas condições de vida. Pelos Teus Olhos foi dinamizado em conjunto com Laura Vasconcelos, psicóloga clínica, e Gonçalo Fonseca, fotógrafo documental, que conheceu alguns moradores do Bairro do Condado ao fotografar para o seu projeto Nova Lisboa, que denuncia os graves problemas habitacionais nesta cidade e o seu impacto nas comunidades multidesafiadas. Face ao contexto provocado pela pandemia, com todos os desafios decorrentes do bloqueio de múltiplas atividades e relações societais, a necessidade de respostas locais às comunidades que estavam particularmente vulneráveis a um processo destrutivo do tecido social, económico e cultural tornou-se ainda mais saliente. Ao perceber que muitos jovens deste bairro nunca tinham mexido numa máquina fotográfica e demonstravam um grande interesse em fazê-lo, aliou esta motivação à necessidade de combater o isolamento social e a desocupação dos tempos livres.


Foi então que surgiram as oficinas de fotografia “Pelos Teus Olhos”, onde participaram onze jovens, com idades compreendidas entre os 9 e os 18 anos, com o objetivo de mostrarem através da fotografia, como se veem a si, o grupo e o sítio onde vivem. As máquinas fotográficas eram entregues aos jovens para que estes pudessem documentar a sua própria realidade e fossem eles quem gravava e quem dirigia as suas representações da comunidade. O início foi fundamental não só para aprenderem bases teóricas e técnicas, mas também para estabelecer a ligação com, e entre, o grupo, que era muito diversificado em termos de interesses, idades e personalidades. A abordagem vocacionada para a saúde mental começou desde logo pelo trabalho com o grupo em termos de como gerir emoções e necessidades de forma a facilitar o trabalho colaborativo, mas também explorando perceções, significados e emoções atribuídas, por exemplo, a fotografias de revistas, com o intuito de as debater e partilhar sensações que despoletavam. Por um lado, pela exploração emocional e identitária, por outro lado, pela exploração criativa e do estilo de cada um. A imagem foi, aqui, um meio de potenciação do pensamento crítico e da reflexão. Tirar uma fotografia é capturar um momento. Momento esse que é representação de um passado e do presente, sendo, também, portador de um significado futuro [1,2]. É mais do que ali se vê, pois implica uma história, um contexto, um significado e, por isso, sentimentos, emoções e pensamentos, de quem a tira e de quem a vê. Tentámos explorar isto em praticamente todas as sessões, tanto com fotografias de outros como das fotografias do grupo, resultantes das saídas ao bairro. Muitos partilharam que sentiam o preconceito e o estigma à volta desta zona, que o bairro era visto como um sítio perigoso, só com delinquência e crime, mas que queriam mostrar que é um sítio que, como qualquer outro, tem dificuldades e forças, com crianças e famílias do bairro, jovens em atividades de rua e “adultos generosos” no comércio local. Aos poucos foram criando as suas próprias narrativas visuais que moldaram e deram sentido a uma exposição final, aberta a toda a cidade de Lisboa, localizada nas paredes de vários pontos do Bairro do Condado - antiga Zona J -, intitulada de Olhares (J)enuínos, tornando um evento artístico acessível onde geralmente não é, e, ao mesmo tempo, promover o Condado como um lugar inserido na vida cultural da cidade de Lisboa.


Dentro do tão vasto leque de linguagens artísticas disponíveis, a fotografia é uma fonte incomparável de informação. Quebra barreiras culturais e linguísticas e é tanto uma forma de expressão criativa, como de registo de factos e acontecimentos. Permite descrever realidades, desafiar estereótipos negativos, alertar e trazer para debate questões sociais fundamentais, captando a atenção de autarcas e outras figuras responsáveis pela gestão de políticas sociais [3]. Meses depois do final do projeto, uma das fotografias tiradas pelo Francisco, com 9 anos na altura em que a tirou, foi capa do livro de Catarina Reis, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, “O homem que via no escuro”, sobre a vida de Bruno Candé. Pelos Teus Olhos tornou-se um ecossistema de aprendizagem, partilha e bem-estar onde a fotografia foi, ao mesmo tempo, ferramenta e base de reflexão, confiança, expressão e representação identitária.



1 Crespo, A. & Pulido, P. (2014). La Fotografia Participativa en el contexto socio-educativo com adolescentes. Comunicación y Hombre, 10, 143-156.

2 Kowalski, M. (2013). O tempo na fotografia. IV Colóquio Internacional de Doutorandos/as do CES. Em http://cabodostrabalhos.ces.uc.pt/n10/documentos/6.1.3_Maria_Pereira_Kowalski.pdf

3 Palibroda, B., Krieg, B., Murdock, L. and Havelock, J. (2009) A Practical Guide to Photovoice: Sharing Pictures, Telling Stories, and Changing Communities. Canada: Prairie Women’s Health Centre of Excellence. Retrieved from: tinyurl.com/PWHCE-photovoice




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